Proveniente de uma família de agricultores humildes, Agostinho Barrias viu-se, desde cedo, obrigado a crescer e a construir sozinho o seu património. Hoje, possui os dois mais emblemáticos cafés da cidade do Porto: Majestic e Guarany.
Agostinho Ferreira Barrias nasceu a 5 de Outubro de 1937, na freguesia de Vila Marinho, em Vila Real. O mais novo de quatro irmãos viu-se obrigado a crescer muito cedo. Aos 12 anos deparou-se sem pai, sem mãe e sem a irmã que, desde os oito anos, ocupou o lugar de “mãe segunda”, como o próprio referiu.
Com apenas 15 anos, com um irmão casado e o outro a caminho da tropa, Agostinho propôs ao tutor, seu primo, viver sozinho. “Eu tinha uma vaca, tinha uma burra, tinha uma ovelha e arranjei a minha terra”, recorda. Contava com a ajuda de várias pessoas que aceitavam trabalhar para ele em troca de comida. Estava encarregue de todos os trabalhos domésticos, “só não lavava a roupa; pagava 70 escudos por mês para ma lavarem”, relembra o dono do Majestic.
A sua admiração pelos cafés começou cedo, ainda em Vila Real. Naquela altura costumava frequentar o café Clube. Observava os empregados, vestidos com as suas jaquetas de botões dourados, que recebiam gorjetas dos clientes e pensava na vida que levava, a trabalhar arduamente de sol a sol. Era com esta imagem que Agostinho sonhava vir a ser um daqueles empregados: “Eu que não recebo ordenado nenhum, para mim é uma maravilha”. Porém, ao ver rejeitada a hipótese de trabalhar naquele café, partiu para o Brasil, aos 18 anos, em busca de uma vida melhor, onde foi acolhido por uma tia, dona de um botequim. “Fiz uma vida de adulto muito cedo. Já viu o que é uma criança franzina, naquele tempo com 15 anos, viver só?”, conta com um pouco de mágoa.
Permaneceu no Brasil durante 10 anos e meio, tendo regressado a Portugal em 1967. Foi nesta altura que teve as suas primeiras férias, desde Abril até Outubro, que ocupou passeando por todo o país. Neste último mês Agostinho faz a sua primeira compra: o café Ofir, no Covelo (Porto). Foi o primeiro passo para o seu negócio. Seguiram-se os cafés Cenáculo, Padrão, Itália e Imperador, todos eles na cidade invicta.
Os cafés mais emblemáticos da cidade do Porto sempre o fascinaram, “mas claro, eram cafés para ricos, portanto não estavam ao meu alcance”, relembra. Em 1982 consegue comprar o Guarany, que “estava num estado moribundo, portanto o café, continuando assim, fecharia por falência”, explica o proprietário. Conseguiu recuperar a maioria das peças de mobiliário deste café, restaurando-as e relançando a traça original do estabelecimento.
Uma vez mais o destino surpreendeu-o e, em 1983, comprou o café com que há muito sonhava, o Majestic. Quando soube que, pela terceira vez num período de dois anos, o espaço estava à venda, dirigiu-se de imediato ao local e falou com um dos nove proprietários: “Se vier aqui alguém perguntar se o café se vende, diga-lhe que já foi vendido que eu dou-lhe 100 contos”. Durante dois anos todo o interior foi restaurado, respeitando o aspecto original, baseando-se apenas na sua memória descritiva e numa fotografia antiga. O seu esforço foi recompensado e, hoje em dia, entre visitantes e clientes habituais, o Majestic conta com cerca de mil clientes diários. O próprio Agostinho Barrias não fazia ideia do sucesso que lhe estava nas mãos: “Sabia que era uma coisa bonita, mas também me pergunto a mim mesmo como é que consegui pôr esta máquina a trabalhar e conservá-la como conservei”.
Apesar de todas as conquistas, Agostinho não esquece as suas raízes, nem o longo caminho que o trouxe até onde chegou e confessa: “Agora já me vou contendo, mas tem ocasiões que mexe muito comigo, que não me consigo conter sem chorar”.
Entrevista Manuela Pinto da Costa
“Há muita coisa pelo país fora e muitas terras que mereciam ser recuperadas como foi o Majestic”
Manuela Pinto da Costa, licenciada em História/ História da Arte pela Universidade Portucalense e docente convidada de várias universidades, faz um breve resumo da evolução dos cafés da cidade do Porto, desde a altura em que ainda eram denominados botequins até aos dias de hoje.
Sabemos que, no início, os cafés eram chamados botequins. Podia falar-nos um pouco da evolução desses botequins para o que é hoje considerado café?
O botequim era uma instituição social um pouco mal frequentada. Sempre existiram botequins, simplesmente eram locais onde, normalmente, homens entravam para beber vinho e ter alguns encontros ou marcações com mulheres ditas da vida. Portanto, os botequins caracterizavam uma classe inferior, a classe do povo. Mais tarde, em finais do século XVIII, princípios de XIX, com a mudança da mentalidade das pessoas, começou a família a deixar a casa e a frequentar locais públicos. O Jardim Público, por exemplo, vai ter essa função. Com a exteriorização e a saída da família para fora do âmbito da casa, os homens começaram então a frequentar certos botequins que já manifestavam um não tão baixo nível, mas começavam a ter alguma qualidade, sobretudo no servir, para lá das bebidas alcoólicas, as bebidas que, lentamente, eram introduzidas na sociedade, como o hábito de tomar um café ou um chá. Portanto, esses botequins que foram evoluindo na sua qualidade de prestação de serviços passaram a ser cafés. Por conseguinte, como eram locais de encontro para homens, frequentemente, esses mesmos botequins proporcionavam algum pequeno espectáculo. Tornaram-se em lugares onde muito devagarinho a cultura começou a entrar através, fundamentalmente, da música.
A nível dos estilos arquitectónicos, por exemplo, o Majestic é uma referência da Arte Nova, mas, relativamente aos outros cafés mais emblemáticos, que outros estilos arquitectónicos eram mais predominantes?
O grande boom dos cafés foi, exactamente, durante o século XIX, onde surge, em força, a Arte Nova, não só além fronteiras, como em Portugal. Este estilo chega ao nosso país um pouco mais tarde, tal como todos os movimentos artísticos, sobretudo comparando com os países em que os cafés eram grandes, no caso da França. Portanto, quando se começa realmente a investir em força nos cafés como centros de, não direi de cultura, mas de grande comunicação em todos os aspectos, então é nessa altura que a Arte Nova vai fazer furor. Modernamente, os cafés estão integrados numa arquitectura contemporânea, embora haja um certo revivalismo que eu posso ligar a um sentimento de saudosismo. Portanto, daí a recuperação do Majestic e do Guarany, enfim, de certos cafés que marcam algumas saudades do antigamente.
Que tipo de pessoas frequentavam os cafés?
No início, evidentemente só homens. Mulher que frequentasse cafés era pouco decente, muito menos uma menina. Portanto, era um mundo essencialmente masculino. Mas é evidente que a mulher sempre teve a sua tendência para se igualar ao homem. Porque haveria de ser apenas o homem a frequentar o café e não a mulher também? Então, sendo acompanhada pelo marido, não havia razões para que ela não o fizesse. Eram ambientes que permitiam, eu direi até uma certa emancipação feminina, porque a mulher tomava um café acompanhada do marido e mais tarde, também as próprias raparigas estudantes. Hoje não há qualquer tabu que impeça uma rapariga, uma mulher ou uma senhora de frequentar um café, tomar o seu café, fumar o seu cigarro, porque estamos no século XXI, não é?
E quando saía, quais os cafés que mais assiduamente frequentava?
Esses cafés também dependiam dos objectivos deles, culturais ou até políticos, porque sabe-se que, aqui no Porto, havia cafés que, por exemplo, no tempo do "antigo regime", reuniam pessoas que discutiam política, sobretudo política anti-governo, fundamentalmente aqueles que se chamavam do “reviralho”. Eram cafés muito conhecidos, como o café Luso, que é um tradicional na oposição política que o Porto fazia e está mais conotado com o partido Comunista. O Luso, que acolhia uma certa "clandestinidade" na altura, foi de onde Humberto Delgado fez aquele grande discurso: “Obviamente demito-o”. Havia outros, por exemplo o café Rialto, que era frequentado sobretudo por pessoas que, ou ainda estavam ao serviço da marinha portuguesa, ou eram já reformados. Então juntavam-se ali num ambiente completamente diferente do ambiente do café Luso. No café Piolho juntavam-se, em especial, os estudantes, porque estava ao lado da Reitoria da Universidade. O Majestic já é diferente, um pouco mais antigo e, sobretudo, ligado ainda à tradição do café-concerto, em que se ia tomar o café mas também se ia ouvir música. Portanto, em quatro pinceladas, ao mesmo tempo, na cidade do Porto tínhamos quatro pontos referenciais de quatro actividades de lazer, as quais criaram públicos específicos frequentadores desses mesmos locais. Com certeza que no Majestic não se encontrava ninguém do Piolho. Não havia grandes misturas, porque “cada macaco tinha o seu galho”.
Na sua opinião, porque é que cafés como o Palladium ou o Imperial fecharam as portas e outros como o Majestic ou Guarany ainda prevalecem?
Ora bem, eu acho que isso é uma questão cultural e, infelizmente, continuo a dizer que nós não preservamos aquele nosso património que nos identifica com qualquer coisa. O Imperial foi descaracterizado porque, embora não sendo um café muito antigo, era um café que fazia parte do património da praça da Liberdade e que nós já víamos como um café onde se podia ir, passar um bom tempo e estar com amigos. Transformá-lo num Mc Donald’s foi descaracterizar esse património porque não acredito que, em termos de rentabilidade ou rendibilidade, o café desse prejuízo. Eu não posso criticar, totalmente, isso porque também não sei os problemas financeiros que os proprietários teriam, e pode até ter sido uma maneira de os resolver. Penso que a Câmara Municipal, ou alguém ligado à cultura e talvez ao turismo, deveria ter tomado providências para que aquele espaço não fosse descaracterizado e, sobretudo, não fosse alterada a sua função. É evidente que nós hoje temos igrejas adaptadas a locais de concertos, temos fábricas a funcionar como museus, portanto, tendo em vista que nada é eterno, esses espaços têm sido utilizados e adaptados, mas não têm sido descaracterizados, não sendo este o caso do café Imperial.
Porque é que acha que as pessoas ainda hoje procuram o Majestic e o Guarany?
Eu penso que deve ser um pouco de saudosismo por parte dos menos jovens. Da parte dos mais novos, um espírito de curiosidade, porque ouviram falar dele com saudade. Na evolução que vão fazendo, os jovens pensam: “Deixa-me ir ver como era. Afinal a minha avó, ou o meu pai, ou o meu tio falaram do Majestic, então seria assim tão giro?”. E como é dos poucos espaços que manteve as características, talvez isso seja fascinante para as pessoas mais novas. Os jovens são curiosos e, sendo curiosos, evoluem e, tendo evolução, vão-se cultivando. Portanto já começam a "achar graça" a um café que foi carismático do Porto. Pode ser que, através da motivação dessa frequência do Majestic, haja quem, com um bocadinho de bom senso, de gosto e cultura, agora pense em recuperar mais alguns espaços, porque aqui no Porto, ainda há coisas a que valia a pena deitar a mão.
E qual será o sucesso, nos dias de hoje, do Piolho? Será apenas uma questão de tradição estudantil?
Eu julgo que sim, porque lá está, tal como o Majestic marca uma época, marca um estilo e, portanto, suscita curiosidade, hoje o Piolho não está tão ligado àquilo a que esteve antigamente, porque sabemos que ali muitos jovens cozinharam e fomentaram actividades políticas que não eram muito ortodoxas. Hoje em dia, a acção e essa actividade que se desenvolveu na clandestinidade no Piolho, deixou de ser um atractivo porque a nova geração não tem restrições a nível de ideologias políticas. Antes, "o era proibido era mais apetecido", pois quantas mais rusgas a PIDE fazia, mais gente frequentava o Piolho. Mas, talvez por isso, ainda venham em busca de qualquer coisa que exista lá e que os faça lembrar ou recordar aquilo que ouviram dizer.