Cafés do Porto



De botequim a café

Durante muito tempo, os botequins surgiram como os principais locais da vida social. Os primeiros apareceram por volta de 1777, em Lisboa. No Porto, a tendência apenas se verificou no início do século XIX. Frequentados, essencialmente, por jovens boémicos, políticos, literatos e artistas, os botequins marcaram a sociedade do Porto.
A partir de finais do século XIX os botequins passaram a adquirir a designação de cafés ou cafés-concerto. Estes novos locais ofereciam ao público variados saraus que a imprensa da altura anunciava como soirées musicais. Os cafés-concerto surgiram com o propósito social de providenciar às classes mais baixas a oportunidade de terem contacto com a música.
O café Lisbonense, situado na Rua do Bonjardim, foi o primeiro a transformar-se em café-concerto. Em Julho de 1880, o jornal “A Actualidade” inaugurou a referência a este novo tipo de estabelecimento, ao anunciar a actuação de um quarteto no Lisbonense. Seis anos mais tarde, o mesmo café propagandeia em “O Comércio do Porto” a realização de uma série de outros concertos “à imitação dos que se usa nos principais cafés de Madrid”.

Séculos XIX e XX – os cafés mais importantes

Semelhante ao que acontecera na Europa, os séculos XIX e XX marcaram uma época de abertura de inúmeros cafés. Por esta altura, vários estabelecimentos portuenses recebiam clientes que procuravam o convívio, o contacto cultural, a música e os debates ideológicos da época.



O Guichard foi um dos de maior relevo na história dos cafés do Porto. Desconhece-se ao certo a data de inauguração, contudo, sabemos que foi encerrado a 5 de Fevereiro de 1857. Quem entrasse no Guichard por volta de 1850 encontraria uma vasta clientela composta por jornalistas, escritores e políticos, entre os quais, Camilo Castelo Branco. Aliás, foi graças à Literatura que o estabelecimento ficou célebre. O ambiente do Guichard distinguiu-se pelo grau de animação. Ana Maria Liberal, professora universitária e investigadora, referiu em “O Tripeiro” que “eram frequentes as alterações físicas entre a rapaziada com a louça e o mobiliário a voarem pelos ares e a atingirem muitas vezes uma que outra cabeça desprevenida”.



Situado na Rua de Sampaio Bruno, ergue-se o edifício que outrora albergou o café Suisso. Este local esteve em funcionamento entre 1853 e 1958, tendo-lhe sido atribuídos vários nomes, designadamente, Lusitano, Portuense e D. Pedro. Em finais de Oitocentos, foi considerado o melhor café da cidade.


O café Chaves era um outro estabelecimento em voga na época. Fundado por José Duarte Chaves, com o nome de Novo Café Portuense, o local abriu as portas ao público nos Jardins da Cordoaria. Em 1900, mudou-se para o rés-do-chão do Hotel Francfort, onde permaneceu até 1917, aquando da demolição do edifício. Nessa época, viu-se obrigado a instalar-se, de novo, nos Jardins da Cordoaria até 1947, data da sua extinção.


Um grande marco de referência ainda na actualidade é o café A Brasileira (na época de inauguração o nome ainda era escrito com “z”), localizado na Rua de Sá da Bandeira. O café foi aberto ao público a 4 de Maio de 1903. Além da procura pelo lazer, o que mais atraía o público era a venda dos pacotes de café personalizados que se fazia na loja. A política era o grande tema de conversa entre o seu público, constituído por médicos, escritores, jornalistas, notários, advogados, artistas e intelectuais.



O café Âncora d’Ouro, hoje conhecido como Piolho, foi inaugurado por Cremilda Reis Lima e Francisco José de Lima, a 24 de Junho de 1909. O nome Piolho surgiu quando um cliente, que entrara no estabelecimento nas horas de maior movimento, designou o ambiente como sendo “uma piolhice”. Desde os primórdios da sua existência que o Piolho gerou um forte vínculo com a vida académica. Os estudantes, em especial os de Medicina, sempre se reuniram aí para convívio e debate de ideologias que, durante o Estado Novo, não eram aceites pelo Governo. Por essa razão, as conversas do Piolho sempre funcionaram na clandestinidade.


O grande exlibris dos cafés portuenses é o Majestic. Aberto desde 17 de Dezembro de 1921, o estabelecimento é caracterizado pela forte presença da Arte Nova na sua arquitectura e decoração de interior. Um ano após a sua inauguração, o café começou a ser conhecido pelo ambiente cultural, passando a ter intelectuais e amantes da arte como principais clientes. Contudo, na década de 60, o Majestic entrou em declínio devido ao “adormecimento” das forças culturais, em Portugal e em especial, no Porto. Entre 1992 e 1994, sob a alçada da nova gerência, o café encerra para obras de recuperação, no intuito de lhe devolver a traça original. Actualmente, o Majestic recebe um grande fluxo de clientes, em especial turistas.


Em plena Avenida dos Aliados abriu, a 10 de Janeiro de 1930, o café Monumental. Este estabelecimento marcou a diferença pela inovação na organização do espaço. Assim, na cave funcionava o bar e o restaurante; no rés-do-chão tinha sido instalado o café e no primeiro andar, uma sala com 24 bilhares. Contudo, a maior surpresa deixada pelo Monumental foi o secador de mãos. A imprensa da época referiu “mãos que se limpam sem toalhas”. Devido à sua orquestra e a um recente sistema sonoro, o café atraía muitos amadores da música.


Um pouco mais abaixo do Monumental abriu, a 29 de Janeiro de 1933, o café Guarany, segundo o projecto do arquitecto Rogério de Azevedo. O estabelecimento distinguia-se pelo seu moderno sistema de ventilação, chegando a ser considerado como o pai ou avô dos actuais sistemas de ar condicionado. O Guarany ficou também conhecido pelos concertos que organizava, quase diariamente, à tarde e à noite.




Na década de 40, entrou em funcionamento o Palladium, que chegou a ser considerado como sendo “o maior da Península”. O café ocupou um total de quatro pisos no edifício projectado por Marques da Silva e ficou célebre pelas maratonas de xadrez, palavras cruzadas, charadas e snooker que nele decorriam.




“A senhora toma café?”

Durante longos anos, os botequins e, posteriormente, os cafés só eram frequentados por homens. Tratava-se de um mundo estritamente masculino, onde tomavam o seu café ou até mesmo vinho, fumavam o seu cigarro, discutiam política e, por vezes, tinham “encontros ou marcações com mulheres ditas da vida”, como relata Manuela Pinto da Costa, licenciada em História/ História da Arte.



Porém, no decorrer do século XIX, a mentalidade da sociedade foi mudando, sobretudo em França, e a mulher passou a reivindicar um pouco mais de liberdade em relação ao seu redutor estatuto de cuidar da casa e dos filhos. Começaram a querer acompanhar os seus maridos na ida ao café, o que, num período inicial, não era muito bem visto pela sociedade. “Era mulher de café e portanto, tinha sempre um certo rótulo, uma pequena conotação com o que estava para trás”, afirmou a docente licenciada em História.


Deste modo, as mulheres passaram a frequentar cafés, sempre acompanhadas pelos maridos. Foi nestes estabelecimentos que as senhoras começaram a ganhar um certo gosto pelo tabaco. Apesar de não ser considerado “bonito” uma mulher fumar em público, era o que acontecia, uma vez que se tratava de ambientes que o permitiam. Manuela Pinto da Costa classifica esta altura como sendo de “emancipação feminina”, uma vez que a mulher já era aceite num local como o café que, apesar de ser público, era dotado de uma certa elite intelectual e política.


A toilette dos cafés

Em pleno século XIX, o cuidado com a aparência física era um ponto fulcral dentro da sociedade. As pessoas aperaltavam-se quando se expunham em locais públicos, de forma a serem conotadas com uma certa hierarquia social que, por vezes, não possuíam.
Assim, quando as damas e os cavalheiros se dirigiam aos cafés, iam sempre elegantes, com uma toilette um pouco mais cuidada. “Até para se distinguirem daquela classe mais humilde, que frequentava os botequins”, certificou Manuela Pinto da Costa.
O facto de, na altura, a classe burguesa dispor de pessoal doméstico contribuía para que as mulheres disposessem de mais tempo no cuidado da sua imagem. Não tinham de se preocupar com as lides domésticas, tais como lavar a roupa, o chão e a loiça, por isso podiam pensar, tal como relatou a docente, “no chapéu para ir ao cinema, no casaco a vestir para ir à ópera, nas as jóias a exibir, escolhidas de acordo com a cor do vestido”. Manuela Pinto da Costa explicou que as mulheres tinham uma certa disponibilidade para se preocuparem com coisas que, hoje em dia, são consideradas futilidades.
Ora, se as mulheres se aperaltavam tanto, os seus maridos também sentiam a necessidade de ter algum cuidado com o que vestiam. Até porque, segundo a docente, nesta época existia uma grande “preocupação de marcar um estatuto social através da toilette”.


Cafés nos dias de hoje

A lista dos cafés mais emblemáticos da cidade do Porto é extensa. Porém, nem todos sobreviveram, acabando por fechar as portas.
O café Majestic é um dos que ainda mantém as portas abertas. A sua traça foi preservada, apesar do passar dos anos e, hoje em dia, atrai milhares de clientes. Todos os turistas que visitam a cidade do Porto têm curiosidade em conhecer o café, que prima pela diferença e que, em tempos, foi rotulado como sendo dos intelectuais e dos amantes da arte.
O Guarany, do mesmo proprietário que o café anterior, também permanece aberto. Sofreu grandes restauros, uma vez que, nos anos 80, se encontrava em decadência. Foi totalmente remodelado, mantendo o cunho original, sobretudo nas cadeiras, nas mesas e no pavimento. Este é um café que continua a ser bastante frequentado na actualidade.
A Brasileira ainda tem clientes suficientes para permanecer aberto. Para além de café, também possui um restaurante. Conhecida, desde 1903, como tendo o melhor café, manteve o seu aspecto exterior muito semelhante à época da sua origem.
O Aviz, para além de café, incorpora no seu interior um restaurante. É conhecido por ter as melhores francesinhas da cidade do Porto.
O Ceuta, instalado num edifício de dois andares, tem, desde a altura da sua abertura, a zona do café no primeiro piso e uma sala de bilhares na cave.
O Piolho continua a ser o café de referência da população estudantil. Próximo de muitas faculdades, é nele que se reúnem os jovens para estudar e conversar. Durante a noite, o café continua aberto e transforma-se no ponto de encontro dos estudantes, que conversam, bebem e dançam ao som de música.
Por último, o Chave d’Ouro, na zona da Batalha, continua aberto, mas mudou completamente a sua fachada. Hoje em dia, é um café moderno e quase não dá a entender que outrora fora um dos cafés mais requintados da cidade.


As imagens que se seguem foram-nos fornecidas por Carlos Romão, autor do blog Cidade Surpreendente.

Café Aviz




Café A Brasileira


 


Café Ceuta




 
Café Guarany




Café Imperial




 

Café Majestic




Café Piolho